Tony Iommi sofreu acidente, fez prótese caseira e virou músico consagrado.
Leia trecho de biografia sobre drama na juventude; banda vem ao Brasil.

O guitarrista Tony Iommi (Foto: John McMurtrie/Divulgação)

Se o guitarrista Tony Iommi seguisse os conselhos médicos que ouviu aos 17 anos, após perder parte dos dedos em um acidente de trabalho, talvez o Black Sabbath não existisse, e os brasileiros não estivessem ansiosos para ver os shows da banda em outubro no Brasil.

A turnê da banda pelo Brasil começa dia 9 de outubro, em Porto Alegre; segue para SP, no dia 11; passa pelo Rio, no dia 13; e termina em Belo Horizonte, no dia 14.

“O melhor que você pode fazer é desistir, na verdade. Arranje outro emprego, faça alguma outra coisa”, disseram os médicos ao jovem músico inglês, que havia perdido parte de dois dedos em acidente em uma fábrica na qual trabalhava.

Iommi não se conformou, criou próteses caseiras e se transformou em um dos músicos mais importantes do heavy metal tocando ao lado de Ozzy Osbourne.

Ele lembra o episódio no trecho abaixo, do livro “Iron Man – minha jornada com o Black Sabbath”. A biografia lançada em 2011 em inglês ganhou recente versão brasileira, pela Editora Planeta.

 “Então, como eu contei antes, era meu último dia no trabalho. Havia uma senhora que dobrava pedaços de metal em uma máquina e eu os soldava. Como ela tinha faltado naquele dia, me colocaram para trabalhar na máquina dela, porque, caso contrário, eu não teria nada para fazer. Eu nunca tinha trabalhado com aquilo e não sabia como fazer. Era uma prensa de guilhotina grande, com um pedal. Você puxava uma folha, empurrava o pedal com o pé e aí aquela coisa descia, com um estrondo, e dobrava o metal.

Guitarrista Tony Iommi participa de coletiva de imprensa em novembro de 2001

Tudo correu bem durante a manhã. Depois de voltar do horário de almoço, pisei no pedal e a prensa veio direto na minha mão direita. Quando puxei a mão de volta por reflexo, as pontas dos meus dedos foram arrancadas. Estique a sua mão, alinhe o dedo indicador e o dedo mindinho e desenhe uma linha entre a ponta deles: a parte dos dois dedos do meio foram cortadas. Os ossos ficaram projetados para fora. Eu simplesmente não conseguia acreditar.

Tinha sangue por todo lado. Fiquei tão em choque que no início nem senti dor.

Fui levado para o hospital e, em vez de fazer algo para parar o sangramento, colocaram minha mão em um saco. Rapidamente, ele ficou cheio, e pensei: “quando alguém vai me ajudar?”. Eu estava sangrando até a morte ali!

Algum tempo depois, alguém chegou ao hospital trazendo os pedaços que tinham sido arrancados, dentro de uma caixa de fósforos. Eles estavam todos negros, completamente arruinados, então não seria possível colocá-los de volta. Depois de mais algum tempo, cortaram a pele do meu braço e colocaram por cima das pontas dos meus dedos feridos. As unhas caíram na mesma hora. Colocaram um pouco de barba por trás delas para ver se as unhas cresciam, enxertaram a pele e foi isso.

Então eu simplesmente ficava em casa me lamentando. Eu pensava: “É isso, acabou tudo!”. Não dava para acreditar no meu azar. Tinha acabado de entrar em uma grande banda, era meu último dia no trabalho e eu estava aleijado pelo resto da vida. O gerente da fábrica foi me visitar algumas vezes, um homem mais velho, careca e com um bigodinho, chamado Brian. Ele viu que eu estava deprimido de verdade, então um dia me deu um disco e disse:
– Ponha para tocar.
– Não, não estou com vontade – respondi.
Ser obrigado a ouvir música certamente não iria me alegrar naquele momento.
– Bem, acho que você deveria, porque vou lhe contar uma história. Esse cara toca guitarra e usa apenas dois dedos – disse ele.
Era o guitarrista belga de gipsy jazz Django Reinhardt e, caramba, ele era fantástico! Pensei que, se ele conseguia fazer isso, eu também poderia tentar. Foi muito bacana da parte do Brian ter tido a consideração de comprar o disco para mim. Sem ele, não sei o que teria acontecido. Assim que ouvi a música, fiquei decidido a fazer algo sobre a situação em vez de ficar deprimido.
Eu ainda estava com ataduras nos dedos e, por isso, tentei tocar somente com o dedo indicador e o dedo mindinho. Foi muito frustrante, porque, quando se toca bem, é difícil regredir. Provavelmente teria sido mais fácil virar a guitarra de cabeça para baixo e aprender a tocar com a mão direita em vez da esquerda. Pensando em retrospecto, eu gostaria de ter feito isso, mas achei que, como já tocava havia alguns anos, levaria mais uns anos para aprender a tocar desse jeito. Parecia tempo demais, então eu estava determinado a continuar a tocar com a mão esquerda. Insisti em tocar com os dois dedos enfaixados, embora os médicos dissessem:
– O melhor que você pode fazer é desistir, na verdade. Arranje outro emprego, faça alguma outra coisa.
No entanto, eu pensei que, caramba, tinha que haver algo que eu pudesse fazer.
Depois de pensar por um tempo, fiquei imaginando se conseguiria fazer uma proteção para encaixar nos meus dedos. Peguei uma garrafa de detergente, a derreti, a moldei no formato de uma bolinha e esperei esfriar. Depois, fiz um buraco com um ferro de solda até que aquilo coubesse por cima do meu dedo. Eu a esculpi um pouco mais com uma faca, peguei uma lixa e fiquei ali, lixando durante horas, até formar uma espécie de dedal. Coloquei-o em um dos dedos e tentei tocar guitarra com ele, mas não ficou legal. Como era feito de plástico, ficava deslizando para fora da corda e eu mal conseguia tocar, pois doía muito. Depois disso, tentei pensar em algo que pudesse colocar por cima daquilo. Experimentei um pedaço de pano, mas é claro que ele rasgou. Usei diferentes peças de couro, que também não funcionaram. Então, achei uma jaqueta velha e cortei um pedaço de couro dela. Era couro velho e, por isso, um pouco mais resistente. Cortei-o de uma maneira que desse para colocar por cima do dedal e o colei, deixei secar e tentei mais uma vez. Pensei, caramba, agora eu consigo tocar a corda de verdade! Também lixei um pouco o couro, mas depois tive de esfregá-lo em uma superfície rígida para dar uma aparência brilhante, para que não grudasse demais nas coisas. Aquilo precisava ficar bem certinho para que eu conseguisse tocar as cordas para cima e para baixo.
Mesmo usando os dedais, meus dedos doem. Se você olhar para meu dedo do meio, vai ver uma saliência na ponta. Logo debaixo dela fica o osso. Preciso ser cuidadoso, pois, às vezes, quando os dedais saem e eu pressiono a corda com força, a pele por cima das pontas dos meus dedos se rasga. Os primeiros dedais que fiz caíam o tempo todo. E era um problema: um dos roadies ficava rastejando pelo palco, dizendo:
– Onde diabos isso foi parar?
Por isso, quando subo no palco, colo fita cirúrgica em torno dos dedos, aplico um pouco de cola de secagem rápida por cima e encaixo os dedais. E, no fim do dia, tenho que tirar tudo de novo.
Só perdi os dedais algumas vezes. Eu praticamente vivia com os dedais quando estava em turnê e os guardava comigo o tempo todo. Sempre tenho um par reserva e meu técnico de guitarra também tem um.
Passar pela alfândega com essas coisas é outra história. Eu guardava os dedais em uma caixa. Eles revistavam minha bolsa e diziam:
– Ora, o que é isso? Drogas?
E aí, o choque: são dedos. Tive de me explicar para a alfândega em várias ocasiões. E eles reagiam dizendo, simplesmente:
– Putz!
Largavam meus dedos falsos com nojo.
Hoje em dia, o pessoal do hospital fabrica o dedal do meu dedo anelar. Na verdade, fazem uma prótese de braço completo e só o que uso são dois dos dedos, que corto fora. Eu já perguntei:
– Por que vocês não fabricam apenas um dedo?
– Não, é mais fácil para a gente oferecer o braço inteiro.
Então dá para imaginar o que o lixeiro pensa quando encontra um braço no lixo. Os dedais que pego se parecem com dedos de verdade; não tem couro no anelar, dá para tocar com o material do qual é feito. Às vezes, eles são macios demais, então os deixo ao ar livre por um tempo para que endureçam ou coloco um pouco de cola de secagem rápida por cima deles para conseguir chegar ao ponto certo de novo. Se eu não fizer isso, os dedos agarram demais nas cordas. É um processo que leva séculos.
Os dedais caseiros costumavam se desgastar, mas, atualmente, a cobertura dura bastante, só o couro fica gasto. Cada dedal provavelmente dura um mês, talvez metade de uma turnê e, quando começa a se desgastar, tenho de fazer tudo de novo. Continuo a usar o mesmo pedaço de jaqueta com o qual comecei, 40 anos atrás. Não sobrou muita coisa, mas ele deve durar mais alguns anos.
É primitivo, mas funciona. Ou você desiste ou precisa lutar e trabalhar assim. Dá muito trabalho. Fabricá-los é uma fase, mas tentar tocar com eles é outra, porque não dá para sentir nada. Você tem consciência de que há uma saliência em cima dos dedos, por isso precisa praticar para que funcione.
Parte do meu som advém da aprendizagem de tocar principalmente com os dois dedos bons, o indicador e o mindinho. Faço os acordes com eles e depois aplico o vibrato. Uso os dedos decepados especialmente nos solos. Quando puxo as cordas, uso o dedo indicador, e também aprendi a puxá-las com o dedo mindinho. Consigo puxá-la em menor grau com os outros dedos. Antes do acidente, eu não usava o dedo mindinho para nada, então tive de aprender a usá-lo. Tenho uma limitação, pois, mesmo com os dedais, há certos acordes que nunca serei capaz de tocar. Nem sempre consigo tocar da mesma maneira nas situações em que costumava fazer um acorde completo antes do acidente, por isso compenso com um som mais denso. Por exemplo, toco o acorde Mi e a nota Mi e aplico um vibrato nela para fazê-la soar mais forte, o que compensa o som mais denso que eu conseguiria tocar como se ainda tivesse pleno uso de todos os dedos. Foi assim que desenvolvi um estilo de tocar que se adaptasse às minhas limitações físicas. É um estilo pouco ortodoxo, mas funciona para mim.”
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Fonte:textoG1 Fotos: Google